Trabalhando na Era do Não-Emprego – Dino Mocsányi

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Trabalhando na Era do Não-Emprego

Dino Mocsányi

Por vários milênios em nossa civilização, ninguém tinha um “emprego fixo” da maneira como temos hoje este conceito, aliás em lenta, porém franca, extinção. O trabalho então era desenvolvido de forma autônoma por quem sabia fazê-lo, dando origem aos artesãos, mestres e, posteriormente, às corporações de ofício da Idade Média.

Eu sei que você não tem tanta idade assim para lembrar de todos estes detalhes com precisão, mas assim foi até início da Revolução Industrial (que saudade de minhas aulas de História…). Surgiram e cresceram então assim as primeiras grandes empresas, absorvendo os camponeses emigrados para as cidades, expulsos pela falta de trabalho decorrente da mecanização agrícola. Esta trajetória ocorreu em muitos lugares do mundo civilizado, no Brasil inclusive, ainda que por aqui com algum atraso, já pelo meio do século 20.

Na crença de que uns só serviam para o trabalho braçal enquanto outros, mais privilegiados, deveriam administrar os primeiros, empilharam-se caixinhas e mais caixinhas organizacionais sobre os níveis operacionais. Surgiram, assim, as grandes e inflexíveis estruturas hierárquicas, e as noções de “trabalho” e de “emprego” se confundiram. Trabalhar significava estar empregado (note o tempo de verbo no passado…). Em um futuro bem próximo, sem dúvida iremos relembrar o final do século passado e este nosso século 20 como a “Era do Emprego”.

O QUE OCORRE HOJE

A moda agora é dizer que os empregos estão indo embora. Você já ouviu isto em algum lugar, não é mesmo? No entanto, pessoas ainda são empregadas, e sempre o serão.

O que ocorre é que o trabalho que elas estão sendo solicitadas a realizar encaixa-se cada dia menos no modelo que nós conhecemos como “aquele bom emprego”. O que está acontecendo? Neste nosso mundo globalizado, do qual fazemos parte agora, e que muda durante cada mal dormida noite de sono, surge nova pressão, por contínua e acelerada readequação da força de trabalho, seja ela operacional, técnica ou executiva. E isto precisa se processar, no mínimo, na velocidade com que cenários, mercados e tecnologia mudam, senão mais rapidamente, se as organizações e pessoas quiserem se antecipar às mudanças, sobreviver e prosperar.

Do ponto de vista de dos recursos humanos, a questão básica que atinge as organizações não está associada tanto às situações econômicas contingenciais, mas à necessidade destas organizações mudarem mais agilmente do que jamais necessitaram fazer antes.

Estruturas organizacionais e empregos tradicionais, na maneira como nós os conhecemos, com horário e local de trabalho fixos, descrição de cargo clara e relação direta e hierárquica entre chefe e empregados, revelaram-se uma maneira bastante inflexível para se realizar o trabalho requerido. Além do surgimento do estilo “coaching” de administração, empresas do futuro terão como forte característica serem “sem-empregados”, e muitas que são pró-ativas já estão assumindo este novo modelo. Na prática, o que ocorre é que continua existindo muito trabalho para ser feito, certamente até mais do que em saudosos tempos mais plácidos, mas as estruturas de cargos e de relação de comando vertical estão rapidamente desaparecendo.

O trabalho passa cada dia mais, a ser realizado pela categoria de “profissionais sem emprego” (por favor: não confunda com “desempregados”!), que estejam em condições de oferecer instantaneamente o conhecimento e habilidades necessárias, pelo tempo em que estas forem requeridas pelas organizações.

Assim, “empregos” tradicionais estão rapidamente se transformando em história passada, e o trabalho é cada vez mais realizado por pessoas que não fazem parte do quadro fixo das empresas. Este é o caso, por exemplo, dos profissionais que saem (ou “são saídos”…) das empresas e continuam prestando serviços em tempo parcial, como subcontratados.

Dos mais tradicionais níveis operacionais, até os executivos temporários para direção de projetos e empreendimentos, esta também é a situação dos profissionais temporários ou por contrato, forma que já se torna usual em vários segmentos empresariais, como a indústria sob encomenda e bens de capital, imobiliário e construção civil, telecomunicações e infraestrutura em geral, em responsabilidades como Marketing, Finanças e Tecnologia da Informação, para mencionar algumas.

Esta forma de vínculo temporário e parcial inclui os consultores e profissionais independentes, os terceirizados e até mesmo os membros de times interfuncionais, nos quais ninguém mais têm uma função ou descrição de cargo clara e permanente. O vínculo do próximo século deverá ser com o trabalho que cada um sabe fazer, e não mais com o emprego ou com um empregador. Ter um bom currículo, ou um longo tempo de casa, não garante mais coisa nenhuma neste mundo novo, tão dinâmico e instável. Empresas e organizações em geral só sobreviverão se puderem contar com os melhores recursos humanos disponíveis a cada momento, dentro de um cenário de demandas que mudam com velocidade inédita.

A questão que coloco para reflexão é que as organizações só vêm mudando de maneira superficial: elas ainda empregam pessoas, pagam a elas para fazer o trabalho que seu emprego exige, as avaliam pela performance no emprego e as promovem para um novo cargo se elas forem bem sucedidas. Organizações tradicionais são constituídas por empregados, da mesma forma que paredes são, lentamente, construídas com tijolos. Mas o ritmo de mudanças que ocorre hoje exige formas construtivas muito mais dinâmicas e ágeis, que possam ser adaptadas muito mais rapidamente. Vejo, com clareza absoluta, que na virada do milênio já mergulhamos de cabeça na “Era do Não-Emprego”, cujas conseqüências mal começam a ser compreendidas por trabalhadores, empresas e governos.

Estudiosos como Charles Handy, William Bridges, em seu livro “JobShift, Um Mundo Sem Empregos” e Jeremy Rifkin, no livro “O Fim dos Empregos”, já nos alertavam sobre isto desde o início da década passada. Muitas vezes foram levianamente considerados visionários pelos mais míopes… O problema novo que surge agora é que ainda existem relativamente poucos recursos para a necessária reciclagem de conceitos, que profissionais e organizações precisam empreender nesta nova situação.

Existem no Brasil, ainda que em quantidade muito inferiores à Europa e Estados Unidos, alguns bons programas de apoio e treinamento para aperfeiçoamento e reciclagem de profissionais independentes e consultores.

Acredito mesmo que nosso Curso para Capacitação e Aperfeiçoamento de Consultores, apresentado desde 1996 em todo o Brasil, seja uma das poucas oportunidades que existem por aqui para esta reciclagem. Existem também no mercado brasileiro alguns poucos livros sobre o mesmo tema, em sua quase absoluta maioria traduzida, ambos tendo como público-alvo organizações e pessoas que atuam ou pretendem atuar neste novo ambiente de trabalho do não-emprego.

Por isto escrevi e lancei, em 1997, meu livro “Consultoria: O Que fazer, Como Vender – Marketing, Vendas e Execução de Trabalhos”, revisado em 2006 com o título “Consultoria: O Caminho das Pedras”, ambos dedicados especificamente a estes profissionais.

Alguns bons livros estrangeiros estão listados em nosso site, na página de bibliografia. A demanda por esta reciclagem confirma que existe hoje uma consciência rapidamente crescente dos profissionais para atuarem não mais como empregados, mas como “fornecedores de trabalho”, ou até melhor, como “fornecedor de soluções” para a empresa, com um “produto” e “mercado” definidos, que “venderão” como empregados ou não-empregados. No admirável mundo novo das relações de trabalho, surgem, a cada dia com mais evidências e força, indícios que já estamos plenamente inseridos nesta nova era.

Existirá sempre muito trabalho para aqueles que souberem entender-se como fornecedores e enxergar-se como um “produto”, que oferece soluções para demandas ainda não plenamente atendidas. São os “empregados just-in-time”, conforme os denomina Rifkin. Somos todos, e seremos cada vez mais, fornecedores de trabalho, com ou sem vínculo empregatício.

O QUE MUDA AGORA

Liderar empresas e este número crescente de não-empregados muda também, e drasticamente. As novas exigências, que precisam ser reaprendidas pelas empresas, incluem, somente para citar alguns poucos exemplos:
1. Alta capacidade de negociação
2. Gestão de culturas profissionais heterogêneas e variáveis
3. Motivação em torno de projetos e metas
4. Habilidade de coordenação entre empregados e toda sorte de não-empregados
5. Contratação e administração por processos e resultados
6. Medição do grau de solução que os “produtos” dos não-empregados oferecem.
Muito bem, pode estar pensando você neste ponto: mas fornecer serviços ou produtos é para empresas! Pessoas têm empregos, não produtos! Esta visão falha por não reconhecer as drásticas mudanças ocorridas no ambiente de trabalho, onde a relação de emprego ortodoxa não é mais a melhor maneira de realizar o trabalho a ser feito.

As pessoas, empregadas ou não, precisam adicionar valor à empresa para a qual trabalham ou pretendem trabalhar, com ou sem vínculo de emprego, e passar a se ver como elos de um processo, onde todos devem adicionar mais valor do que custo.

E como fazer isto? Existem duas maneiras muito simples, embora possivelmente demoradas, para você começar sua própria conscientização e mudança:
1. Em primeiro lugar, veja a empresa como seu “mercado”, e procurem nela quais são as necessidades não-atendidas. Você deve ser o melhor “produto”, digo, candidato (você já está se acostumando com sua nova condição?) a supri-las, se estiver atento e for rápido.
2. Em segundo lugar, avalie quais são seus recursos, o que você oferece, ou em outras palavras, o que você está em condições de vender e entregar a este “mercado”. Enfim, que “produto” é você?
A este respeito, William Bridges, que conheci e com quem mantenho contato desde 1997, oferece uma interessante abordagem, que me permito sintetizar para os leitores em cinco pontos:
1. A tendência clara é que uma boa parte das pessoas passará partes substanciais de sua vida profissional alternando entre o emprego e o não-emprego. Conheço muita gente assim, eu mesmo me sinto desta forma hoje, e você deveria ir pensando nisto!
2. Um produto (você, seu serviço!) existe pela interseção de sua capacidade de entrega profissional e por uma demanda não-atendida da organização para a qual você trabalha ou pretende trabalhar. Mas lembre-se: a demanda não-atendida de ontem, que um dia o levou a ser contratado, pode não ser a mesma de hoje ou de amanhã: fique alerta para mudanças em seu “mercado” e adiante-se a elas!
3. Uma grande maioria das pessoas, empregadas ou não, ainda não aprendeu a compreender seus recursos e seus “mercados”. Se este for o seu caso, comece a pensar nisto agora! Se já pensou, melhor para você, grande oportunidade de sair na frente!
4. “Você – produto” não é o que você faz em seu emprego hoje, ou o que poderia fazer se tivesse oportunidade; não é sua descrição de cargo atual; não é sua formação, habilidade ou experiência profissional;
5. “Você – produto” é algo que gera os resultados ou benefícios que seu mercado necessita obter, seja ele seu empregador ou seu cliente, ou algo que solucione um problema que se esteja enfrentando. Algo que adicione o valor faltante em outros “produtos” já fornecidos por seus concorrentes.
Para encerrar, permita-me sugerir que você tente algo novo: escreva um anúncio sobre você mesmo, sobre “o produto” que é você. Esta é uma excelente maneira para assegurar a si mesmo que você sabe o que vende, a quem, por que ele deveria comprá-lo e como dizer isto a ele, esteja você empregado ou não, mas trabalhando nos próximos anos!

fonte: http://www.consultores.com.br/artigos.asp?cod_artigo=23

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